São muitas as preocupações dos milhões de estudantes que vão prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Até o candidato mais preparado já pensou nos piores cenários, como: E se eu zerar a redação?
O medo não é infundado: segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mais de 132 mil candidatos obtiveram nota zero na redação em 2023 – cerca de 5% dos participantes. A prova, que neste ano será aplicada em 9 de novembro, tem peso decisivo na nota final.
O que zera a redação do Enem?
Conforme determinado na Cartilha do Participante, disponibilizada pelo Inep, a redação receberá nota 0 (zero) se apresentar uma das características a seguir:
- Fuga total ao tema
- Não obediência ao formato dissertativo-argumentativo
- Folha de redação em branco ou com até 7 linhas escritas (10 linhas no sistema Braille, no caso dos candidatos com deficiência visual)
- Cópia de textos da prova (linhas copiadas serão desconsideradas na contagem do mínimo)
- Parte deliberadamente desconectada do tema proposto
- Nome, assinatura, rubrica ou outra forma de identificação no espaço destinado ao texto
- Impropérios, desenhos e outras formas propositais de anulação
- Texto escrito em língua estrangeira
- Texto com letra ilegível
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Na imagem, trecho da redação de estudante que recebeu nota 980 na edição passada do Enem. — Foto: Reprodução/Luísa Barbosa
Fuga ao tema e formato
Segundo Tanay Gonçalves, professora de redação da plataforma Professor Ferretto, os critérios mais “perigosos” estão relacionados à Competência 2 da Matriz de Referência do exame (veja abaixo), que compreende a adequação ao tema e ao gênero dissertativo-argumentativo. “Se o aluno entregar, por exemplo, um poema ou uma carta no lugar de uma dissertação, a prova será zerada”, ressalta.
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Cartilha do participante do Enem explica as cinco competências avaliadas na redação. — Foto: Inep
No caso de fuga ao tema, há dois cenários possíveis:
- Fuga total ao tema: quando nem o assunto mais amplo nem o tema específico proposto são desenvolvidos, a redação recebe zero. Exemplo: se o tema proposto for “a visibilidade das pessoas em condição de rua”, e o candidato escrever sobre violência doméstica.
- Fuga parcial/tangenciamento ao tema: quando o texto aborda só parcialmente, de forma ampla, o assunto a que o tema está vinculado. Não zera a prova, mas a perda de pontos pode ser significativa, já que afeta as Competências 2, 3 e 5 e impede notas acima de 40 em todas elas.
Cópia de textos da prova
Outro ponto de atenção é a cópia de informações dos textos de apoio fornecidos na prova de redação ou no caderno de questões de Linguagens e Ciências Humanas.
Trechos que apresentarem cópia integral ou parcial não entram na contagem mínima de linhas escritas. Assim, se restarem sete ou menos de autoria própria, a redação é automaticamente anulada.
O material do Inep explica que “a recorrência de cópia é avaliada negativamente e fará que sua redação tenha uma pontuação mais baixa ou, até mesmo, seja anulada como cópia“.
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No primeiro caso, o candidato recebe apenas 80 dos 200 pontos possíveis na Competência 2 se “desenvolve o tema recorrendo à cópia de trechos dos textos motivadores ou apresenta domínio insuficiente do texto dissertativo-argumentativo, não atendendo à estrutura com proposição, argumentação e conclusão”.
Vale lembrar que essa competência (veja o quadro abaixo) também avalia a capacidade de o aluno apresentar repertório sociocultural próprio.
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Competência 2 da redação do Enem. — Foto: g1
Como evitar que a redação seja zerada?
Antes de tudo, o candidato deve fazer “uma boa leitura dos textos motivadores e da frase temática, pois são esses os elementos que norteiam a escrita da redação”, lembra Maysa Barreto, assistente pedagógica da plataforma Redação Nota 1000.
A redação deve contemplar a proposta indicada na frase-tema de forma integral. Deixar o tema subentendido, por exemplo, não é suficiente. Isso porque ela “deve ser compreendida, até mesmo, por um(a) leitor(a) que não tenha tido acesso à proposta de redação na qual ela foi baseada”, orienta a Cartilha.
Para garantir a adequação, “mencione o tema pelo menos quatro vezes ao longo da redação – considerando os quatro parágrafos da estrutura básica da dissertação”, recomenda Tanay.
A repetição do tema não precisa ser literal em todas as menções. “Colocar todas as palavras-chave e seus sinônimos ao longo da redação, garantindo uma boa progressão temática: elas são os substantivos, adjetivos e advérbios presentes na frase tema”, indica Maysa. Quanto ao critério de cópia, ela frisa:
“O Enem quer uma produção autoral. É possível aproveitar ideias que surgirem ao longo da leitura, como as razões da persistência do problema. Mas, se a maior parte da redação for cópia ou paráfrase de textos apresentados pela banca, a redação é zerada”, alerta Maysa.
️💡No dia da prova, antes de passar o texto do rascunho para a folha de redação, vale fazer um checklist considerando as cinco competências avaliadas pelo Enem. Assim, o aluno se certifica de que todos os requisitos foram atendidos e não há erros graves que possam levar ao zero.
O que o Enem considera como ‘parte deliberadamente desconectada do tema proposto’?
Esse item corresponde às reflexões do participante sobre o próprio exame, bilhetes para os corretores, mensagens políticas, orações, músicas ou trechos de poemas.
➡️ Isso não impede o uso de uma mensagem de protesto ou uma letra de música, por exemplo, como parte do repertório, desde que as passagens estejam devidamente articuladas à argumentação construída. Ou seja, não apareçam de forma isolada.
“Em suma, para ter sua redação anulada por esse critério, é preciso que você insira, de forma proposital, pontual e desarticulada, elementos estranhos ao tema e ao seu projeto de texto e/ou que atentem contra a seriedade do exame”, resume a Cartilha do Candidato.
Ferir os direitos humanos pode zerar a redação?
Em 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que o Enem não poderia mais zerar automaticamente a redação de candidatos que desrespeitem os direitos humanos.
O que ainda pode acontecer é ter a nota zerada na Competência 5 da Matriz de Referência – que avalia, em até 200 pontos, a capacidade do estudante de “elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos”.
Fonte: G1





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